Sistemas Educativos
“Não podendo situar-se fora de um determinado contexto politico, económico e social, o sistema educativo deve, antes de mais, ser considerado como uma rede de interações complexas, que o obrigam a ter em conta a realidade social envolvente, de modo que este não seja considerado como uma ilha no seio dos restantes sistemas sociais.” (Arroteia, 1991:pp 55)
O ensino em Portugal, tal como no resto da Europa e do mundo, tem vindo a sofrer alterações constantes e significativas nos últimos 60/70 anos.
As mudanças na sociedade e a passagem do poder que gere a economia dos países refletiu-se na necessidade de alterações sobre a educação formal. A evolução da tecnologia, a rápida ascensão das TIC, a globalização da informação e as repercussões das mesmas na sociedade levaram a uma consequente insegurança (o adquirido pode revelar-se provisório, instável).
O conceito de sociedade do conhecimento surge aqui como forma de caracterizar esta nova era da nossa sociedade. Associado a profundas transformações, tendo a tecnologia como fator primordial para uma nova organização social baseada em redes, impõem-se saber como os sistemas educativos vão incluir esta nova realidade na sua conceção.
A sociedade, antes centrada na produção (sociedade industrial) passou a uma sociedade onde o “poder” se centra no conhecimento. "O saber é a nova fonte de riqueza que não se comporta como qualquer outra forma de riqueza e nisto reside o paradoxo” (Ramos, 2007). Daqui advém uma maior necessidade de evoluir no campo educativo. Tal como refere Delors (1998) "é necessário caminhar para uma “Sociedade Educativa”, capaz de dotar o individuo de uma educação básica de qualidade, com conhecimentos que lhe permitam modelar a sua vida e participar na evolução da sociedade.”
É preciso definir o conceito de educação inserido neste contexto, assume-se, pois, educação “como um processo contínuo de desenvolvimento tanto das pessoas como das sociedades” (Delors et al. 1998).
E “é neste sentido que as profundas transformações em curso questionam as políticas educativas e suscitam a questão do papel da Educação e dos Sistemas Educativos nesta dinâmica social” (Ramos, C. 2001).Torna-se pois, imperativo que os sistemas educativos acompanhem esta evolução e se adaptem às constantes mudanças, ou seja, “requer uma reconversão total do sistema educativo, em todos os seus níveis e domínios. Isto refere-se, certamente, a novas formas de tecnologia e pedagogia, mas também aos conteúdos e organização do processo de aprendizagem” (Castells, 2005:27).
É certo que o sistema educativo é concebido em função de um país e não em função de uma só região mas é necessário que contemple a flexibilidade necessária de forma a permitir adaptações consoante as necessidade sociais e educativas das diferentes zonas. Todas as mudanças sofridas pela sociedade têm uma repercussão no microssistema que é a escola. Pela teoria ecológica de Bronfenbrenner os microssistemas são afetados pelo exossistema e abrangidos pelos macrossistemas.
A questão principal aqui é: de que forma se pode inovar, renovar e reconfigurar os sistemas educativos de modo a que possam dar resposta à presença das novas tecnologias, às alterações de identidade da sociedade e até às constantes modificações políticas e económicas que se afiguram?
Os sistemas educativos não se podem conceber à parte das novas tecnologias sob pena de se tornarem obsoletos e inovar, renovar e reconfigurar parece a direção adequada a esta nova conceção.
Inovar não significa que se deixe o tradicional em prole do futurismo, inovar significa ter como base o tradicional mas renova-lo para que se adapte à nova realidade, “é a capacidade de explorar sistematicamente os efeitos produzidos por novas combinações e utilizações de itens de stock existentes de conhecimento, cujo acesso está mais generalizado e facilitado do que nunca” (Soete, 2000:pp14) - referido por Isabel Pires no fórum 1 de Sistemas Educativos, UC do MSVP. Inovar requer uma rutura com o anterior para que se possa trazer algo de novo mas sem que isso signifique que se mude o essencial, muda-se, sim, a forma de transmissão desse essencial.
Renovar significa que os novos métodos de ensino/aprendizagem precisam de ser renovados onde as novas tecnologias e educação se complementem. O papel do professor é agora mais pertinente do que nunca pois dele depende a criação de novos cenários de aprendizagem que permitam ao aluno construir as suas próprias aprendizagens e desenvolver capacidades autónomas de aprendizagens/conhecimentos tornando-se ele o agente principal do seu desenvolvimento.
Reconfigurar é repensar o sistema educativo e adaptá-lo às novas realidades tendo em conta um cenário de inclusão social, de adaptabilidade, flexibilidade e autonomia. “Os sistemas educativos devem dar resposta aos múltiplos desafios das sociedades da informação, na perspetiva de um enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício de uma cidadania adaptada às exigências do nosso tempo” (Delors, 1998). Fundamentado pelos quatro pilares da educação: saber-conhecer, saber-fazer, saber-saber e saber a viver juntos os Sistemas educativos devem ser reconfigurados de forma a permitir equabilidade de educação e de oportunidades para todos os indivíduos pertencentes a uma sociedade.
Contudo, a equabilidade de acesso à educação só será uma realidade universal e fator de desenvolvimento quando se conseguirem ultrapassar os problemas existentes de empobrecimento, de igualdade de acesso a oportunidades e quando os direitos à educação forem iguais entre homens e mulheres em todos os países.
Em Portugal o nosso sistema educativo divide-se em 4 ou mesmo 5 níveis, a saber: 1.º ciclo (4 anos), 2.º ciclo (2 anos), 3.º ciclo (3 anos), secundário (3 anos) e universidade (3 ou 4 anos) ou curso técnico (duração média de 1 ou 2 anos). Não muito diferente de outros sistemas educativos pelo mundo a diferença está na forma como se construem estruturas estimulantes, a saber:
“1) Las bases educativas, aquellas que se cultivan en los primeros años escolares, determinarán en buena medida el éxito posterior del modelo.
2. Es fundamental “enseñar a aprender” y no simplemente inculcar conocimiento.
3. Los mejores modelos educativos involucran una gran cantidad de actores sociales: funcionarios, maestros, alumnos, padres de familia y en general requieren de la gestación de una cultura alrededor de la enseñanza y el aprendizaje.
4. Se deben propiciar ambientes laborales que demanden el uso, aprovechamiento y enriquecimiento de las aptitudes aprendidas durante la etapa escolar.” (The learning curve, 2014)
Cada país deve, pois, adaptar os seus Sistemas Educativos à sua realidade no sentido de promover uma modernização reflexiva que reflita não só a individualização como a globalização.
Bibliografia
- Arroteia, Jorge Carvalho (1991). Análise Social da Educação, Roble Edições, Leiria
- Castells, M. (2006). A sociedade em rede: do conhecimento à política. In M. Castells & G. Cardoso (Coord.), A Sociedade em Rede: do Conhecimento à Política. Debates: Conferência promovida pelo Presidente da República (pp. 16-29). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
- Delors, Jaques et al (1998). Educação – Um tesouro a descobrir, Edições ASA, Porto
- Ramos, C. (2007). Sobre o conceito de “Sistema”. Lisboa: Universidade Aberta
- Ramos, C. (2001). Tendências Evolutivas das sociedades contemporâneas, in Os processos de autonomia e descentralização à luz das teorias de regulação social: o caso das políticas públicas de educação em Portugal (Tese de Doutoramento). Monte da Caparica: FCT/UNL. Disponível em http:/hdl.handle.net/10362/1009
- Soete, Luc (2000). “A economia baseada no conhecimento num mundo globalizado”. In Maria João Rodrigues (org.). Para uma Europa da Inovação e do conhecimento – Emprego, Reformas Económicas e Coesão Social. Oeiras: Celta, pp. 3-31.
- The Learning Curve: The Global Index of Cognitive Skills and Educational Attainment 2014, edição de 2014 In http://pijamasurf.com/2014/05/estos-son-los-10-mejores-sistemas-educativos-del-mundo/ - acedido online em 29/10/2014

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